Bangu, Rio de Janeiro.
Março de 2008.
Parecia que eu tava
preveno que aquele dia ia ser zuado. Incrível, viado. Já acordei pisano no gato
e descobri que a margarina tinha acabado; comi creme craquer purim. Tô te
falano, Creito... É Creito o seu nome, né? Então, Creito. Já amanheci zicado
das ideia naquele dia... Acho que já acordei daquele jeito já, pisano no gato e
tal, por causa que eu ia fazê meu primeiro roubo naquele dia, mano. Eu não tava
quereno mas os mano tava botano muita pressão, tá ligado? O Gaivota já tinha
separado até o ferro pra mim já. E o Gaivota, ele era o bandido do tipo que
nego num ousa contrariá, tá ligado? E eu que num ia desafiá o maluco. Eu tenho
amor à vida, pô!
Aí tá. Depois de eu
cumê mal pra caralho, ca barriga mó vazia ainda, bejei a minha mãe e eu fui até
onde o Gaivota tava cos muleque me esperando pra fazê o esquema lá. Era cedim
ainda, pô, era nem onze hora ainda. Só sei que já cheguei me tremeno todo, tá
ligado? Conseguia nem escondê o nervosismo. E foi só eu chegá pra ele já começa
cas impricância:
– Iiiiiiih, olhaí quem
tá chegano! Olhaí! Vitim pro primeiro 157 dele!
Aí ele virô pra mim, né:
– E aí, menó, tá
preparado?! Aqui teu ferro, cuidado pra não atirá no próprio pé, hein!”
E aí ele começô a rir
cos outros cara da boca, fiquei com mó vergonha. Fiquei com mais vergonha ainda
de quase derrubá aquele trezoitão no chão porque eu nem tava ligado que era
pesado daquele jeit– Porra, para de rir, viado! Tu sabe que é pesado pra
caralho, Creito! Paraí, deixa eu continuá, pô! Então... Depois disso aí tudo o
Gaivota me expricô que nóis ia descê pra roubá o carro na rua ali pertim e que
eu que ia tê que anunciá o assalto. Ele disse que eu ia rendê o maluco no sinal
e depois geral ia entrá no carro pra voltá pra comunidade, Gaivota dirigino.
E a gente foi, né, e a
essa altura eu já tava branco de medo. EU branco! Té parece! Então, mas eu tava
me cagano mermo, viado. Mas aí nem deu tempo de eu me prepará que o amigo do
Gaivota já tava sinalizano que era preu pegá o Corsa preto. E eu como? Já fui
correno já, mas acho que o cara do carro percebeu que eu tava me borrano e já
saiu do carro bolado me bateno fortão, mané. Chamei os maluco pra me ajudá mas
quando olhei eles já tava tudo longe! Os desgraçado correro e me deixaro lá
apanhano do bombadim! Só sei que quando dei por mim o playboy já tinha me dado
uns três soco na barriga e me amarrado com uns fio de sei lá o quê lá na beira
da rua e tava ligano pros hôme já. Pensa no desespero, viado! Tentei de tudo
pra fugí mar num ia tê jeito mermo.
Num deu 30 minuto e a
viatura da PM chegô. Os cana já bolado olhano pra minha cara como se num
tivesse almoçado e eu fosse um pernilzão tipo aqueles do Tom e Jerry, tá
ligado? Mas aí eles foro falá com o pleysson primeiro, e ele contô tudim o que
tinha acontecido. Os puliça já veio com o cassetete na mão já, e eu como de
desespero já? Eu num sabia se chorava, se tentava me soltá, se rezava, se
gritava pela minha mãe... Minha cabeça tava a mil, viado. Só sei que eles já
chegaro meteno um porradão sinistro na minha canela que fez até barulho e eu
nem tava fazeno nada! Tava quieto na minha! Aí começaro a gritá na minha cara,
que eu era vagabundo, que eu era trombadinha, que eu era um bostinha. Pô, eu
sei que eu sou, mas precisava falá na cara assim?
Enquanto o primeiro PM ia cortano os fio o
outro me aplicava um mata-leão fudido pro otro me tirar o fio de prástico e
botá o de metal, tá ligado? Como se eu fosse alguma ameaça pra eles, magrelim
desse jeito! E o pió é que eu nem fazia ideia de onde o trezoitão tava. Acho
que o playsson levou. E aí me levaro pro camburão. Mano, impossível tirá da
memória aquela lâmpada do carro da PM girando ca luz vermelha. Daquele vez EU
que era o bandido, tá ligado? Não era um carinha na televisão mais, era eu! Eu!
Minhas perna voltaro a tremê, mas dessa vez era de desespero mermo. Daí eu
lembro que eles enfiaro minha cabeça dentro do carro e fecharo a porta do
porta-mala com um porradão. Eles entraro no carro e o puliça do carona virou
pra olhar pra minha cara:
– Tu é um merdinha,
sabia? Roubando carro em plena luz do dia? Tem que ser tapado DEMAIS. Hahaha.
Agora taí na merda, no camburão indo pra delegacia. Tsc, tsc.
Aí ele virou pro
motorista:
– Já viu algum
trombadinha mais burro do que esse, Vieira?
– Se vi num lembro!
E olhou pra mim de
volta:
– Quantos anos voc---
ihhhh, olha lá, Vieira! Tá chorando! O marginalzinho tá chorando! Na hora de
fazer MERDA tu num pensa nisso, né? Na hora de meter arma na cara dos outros
você sabe, né, seu VERME! Maltrapilho do caralho, vamo ver se agora aprende.
Tenho pena é da sua mãe...
Aí, se virando pro
motorista de volta:
– Vagabundo do
caralho... Ih, peraí! Vieira! Peraí, para o carro rapidinho! O Percival disse
que a coxinha dessa lanchonete é a melhor que tem! Vou comprar umas pra comer
na delegacia. Rapidinho, já volto!
Nessa altura eu já
tava com a cabeça zunino. Tava me sentindo meio que na anestesia, sei lá. Ainda
num tinha caído a ficha que eu tava ino preso, tá ligado? Tu num imagina a
sensação ruim, viado. Sensação de num tê como corrê, de tá ali que nem um
bicho, veno minha liberdade seno tirada de mim. Como eu ia jogá bola cos
moleque agora? Quando que eu ia zerá o God of War II, cara? E a minha mãe? Nem
queria pensar no sofrimento dela quando ela subesse. O puliça tava certo...
Trabalha de doméstica o dia interim pra me sustentá e eu faço uma merda dessa?
Ela num merecia isso.
Enquanto minha cabeça
girava com esses pensamento, o cana voltou pro carro com um saco cheim de
coxinha, e o cheiro tava maravilhoso. E eu, com o estômago roncano, só
conseguia pensá em voltá pra casa e comê uns creme craque puro e ficá no Orkut.
Por que eu tive que ir na onda do Gaivota, Creito? Por quê?! Eu sou um idiota
mermo, esses puliça tava certo mermo. Minha vida num era das melhores mas dava
pra levá na honestidade, tá ligado? Pensano nessas coisas começô a dá vontade
de chorá de novo, então eu fechei os olhos bem forte e tentei imaginá quando
esse pesadelo ia acabá pra conseguir segurá o choro. Pra num virá chacota dos
cana de novo, tá ligado?
Só sei que logo chegamo na delegacia. Já
gritaro logo pra eu sair do carro e foro me empurrano até lá drento. Achei que
todo mundo fosse ficá olhano pra minha cara mas eu acho que eu era só mais um
neguinho entre tantos outros. Já num era novidade pra eles. Lá drento os
telefone num parava de tocá, era gente andano pra todo lado, igualzim nos
filme, tá ligado? Pena que eu que era o meliante ali, e aquilo tava aconteceno
de verdade. Minha liberdade tava perdida, eu me senti que nem que um cachorro
na coleira. Sensação de “criança chora e a mãe num escuta”, tá ligado? Se bem
que preferia que minha mãe num escutasse mermo... Mas é isso aí, Creito. Foi
assim que eu vim pará aqui. Agora é sua veiz de me contá a sua história.